sábado, 30 de julho de 2011

Educação fictícia

Recentemente recebi uma proposta de trabalho numa faculdade privada e o contratante me apresentou de pronto a seguinte advertência:
- Professor, o nível dos alunos [era um curso de Administração] é sofrível. Muitos deles praticamente não conseguem desenvolver cálculos matemáticos elementares, além da produção escrita muito precária e deficiência em leitura de textos mais técnicos e elaborados. São em sua maioria são bolsistas do ProUni e do Fies e vieram de escolas públicas. Isso está me deixando muito preocupado.
De imediato, achei que o alerta do coordenador do curso fosse um misto de exagero e preconceito. Mas também tive meus motivos para crer em tal testemunho, pois bem sei que ele é bem factível. Não lhe disse que também trabalho como professor de ensino médio em escola pública, mas acabei recusando a oferta em função de fatores que não me favoreciam – como o horário das aulas. Fui embora da reunião pensando na situação e me convencendo cada vez mais sobre o fato de que o professor deveria estar coberto de razão.
Na semana passada a Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) divulgou o saldo preocupante de seu vestibular extraordinário de meio de ano, voltado para cursos de engenharia. O índice de candidatos eliminados pela insuficiência de notas (o ponto de corte) foi de cerca de 80%.
Esta situação parece importar muito pouco as ditas autoridades educacionais, pois cada vez mais vemos implantadas políticas que agravam ainda mais o quadro de mediocridade do ensino. Estas políticas exploram discursos que colocam os estudantes em uma condição de superproteção que acaba ensinando que esforço para aprender não é algo importante, pois no final das contas eles serão benevolentemente agraciados com a progressão do ensino sem a necessidade de comprovar a aquisição de conhecimentos ou habilidades mínimas. Daí o fiasco nos vestibulares e a precariedade no curso da formação universitária. Mentalidade como esta não é aceitável em país que pretenda levar a sério seu desenvolvimento, mas aqui a coisa tomou ares de irresponsabilidade mesmo.
O economista Claudio de Moura Castro escreveu um ótimo artigo na revista Veja (uma rara leitura interessante na tal revista) onde discutia essa situação (clique e leia). Ele argumentou que estamos comprometendo nosso futuro ao adotar uma perspectiva educacional adoçada com o excesso de proteção e a falta de rigor. Ele apontou o exemplo chinês como referência de cobrança, compromisso e empenho quanto aos resultados na educação. Mas rigor chinês não é bem visto no Brasil, como parece claro. E onde estão as diferenças? Na China os indicadores de resultados verificados em comparativos internacionais aponta um elevado grau de desempenho, enquanto nós ficamos perdidos no final da fila, atrás de vários países da própria América Latina.
Por onde andamos, autoridades de instâncias governamentais, congressos de educação, especialistas e gurus da psicopedagogia sem resultados apregoam seus métodos e ensinamentos que desprezam a realidade e enaltecem a mediocridade. Ver tudo isso causa desânimo, frustração, alimenta até a vontade de abandonar o barco.
Já em seu primeiro pronunciamento oficial como liderança do Executivo, Dilma Rousseff consagrou sua fala à educação. Logo no início do discurso, a presidente ressaltou a necessidade de primar pela qualidade, inclusive afirmando que seria necessário “acabar com a trágica ilusão de ver aluno passar de ano sem ter aprendido quase nada”. Isso sabemos que é verdade, mas os mandachuvas da educação não assimilaram a mensagem.

6 comentários:

  1. É uma tristeza Paulo, trabalho à noite com algumas turmas do Magistério e o procedimento dos futuros professores é lamentável. Chegam ao 3º ano 'copiando' trabalhos igual a fonte da pesquisa.Nada interpetam, e ainda acham que os professores fazem correções desnecessárias, chegaram a afirmar numa reunião que a escola está cheia de " professores não facilitadores do ensino".

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  2. Eu não tenho mais paciência para ir a congressos e palestras desses gurus educacionais que ganham uma nota para falar do que não conhecem. Em um congresso médico de cirurgia, por exemplo, a primeira coisa que os ouvintes querem saber é a experiência do profissional da área. Já pensou se o palestrante falasse que nunca operou ninguém mas já leu muito sobre o assunto? Ninguém perderia seu tempo com ele.Já o professor vive pagando para esses caras vomitarem baboseiras. Raramente vejo em um congresso, mesa redonda, palestra ou seja lá o que for um professor que tenha efetiva experiência em sala de aula. A culpa é de quem? Minha velha mãe já dizia aquele velho ditado "aí dos sabidos se não fosse os bestas".

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  3. Não entendo que, mesmo diante de tantos alertas acerca do baixíssimo nível de desempenho dos alunos, que são em sua grande maioria oriundos das escolas públicas, os governos(municipal, estadual e federal) ainda continuem "acreditando" nesta situação fictícia, acerca dos "avanços" da educação no Brasil.

    Se fizessem uma pesquisa acerca da vivência de prática de ensino nos níveis básicos da educação (os alvos preferidos dos pedagogos "legitimadores" da atual política educacional) veriam que a maioria nunca pisou em uma sala de aula para atuar como professores da rede pública, nem têm filhos estudando nas mesmas.

    Fiquei feliz ao saber que em uma das escolas onde atuo, a professora da 4ª série havia acabado o mestrado em educação há pouco tempo. Minha alegria durou muito pouco, pois a encontrei lamentando o fato de ter de dar aula( para este nível de ensino) queria em pouco tempo atuar como "professora de professores" e não ter mais contato com crianças mal educadas. Por que pedagogos 'especializados" não gostam de atuar com crianças, mas sim com o "resto" dos colegas? Estes se tornam cobaias das ideias descabidas desses "pensadores da educação" .

    Imagino que esta é a prática da "pedagogice" atual: Falar para os outros fazerem é muito fácil, daí falam e falam e nada vemos de resultado positivo.

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  4. Complementando meu comentário sobre pedagogices: Esta minha colega de trabalho que acabou o mestrado há pouco, começou a trabalhar com ensino há pouco tempo, antes só estudava, e deve ter uns 25 anos de idade, no máximo.
    Não tem experiência de ensino com alunos e quer dar aula para professores. É mole? rsrsrsrs é a cara de nossa descabida política educacional. Daí meu interesse em trazer o seu exemplo para discussão.

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  5. Andrea, eu até faço o oposto do que faz tua colega.

    Atualmente dou aulas sobre tecnologia na educação lá na UFPE, num programa de formação continuada do Centro de Educação e do FNDE. Mas não me afastei da realidade, pois tenho minha carga-horária totalmente cumprida em sala de aula na rede estadual. Na verdade, eu não concebo realizar o que tenho feito na UFPE sem vivenciar o cotidiano escolar, pois eu estaria divagando sobre algo cujo funcionamento eu mesmo não conheceria, então por isso acho que só posso "dar aulas" para professores se eu mesmo tiver conhecimento de causa sobre o que ensino.

    Mas tua colega não é caso isolado, tenha convicção disso.

    Alguns acham prova de status fugir da sala de aula escolar para "ensinar" professores a fazer algo que os próprios "especialistas" desistiram de fazer. É uma espécie de ascensão profissional invertida essa em nosso meio.

    Um médico que se afirma expert em seu ofício tem sua prática em procedimentos para comprovar sua perícia e consolidar-se como referência profissional. O mesmo ocorre entre vários outros segmentos. O nosso é exceção, pois que dá uma de autoridade é quem não passa perto de escola.

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  6. Por isso Bolsanaro para presidente,
    Pois quando ele diz que nunca queria que um medico formado atraves de cotas ou outra coisa fizesse uma cirurgia neles.
    Isso é o que dá colocar no MEC, incompetentes que querem impor o Kit Gay entre outras abominações nas nossas escolas em vez de realmente priorizar a educação.

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